terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As bonitezas alheias que se adotam adaptadas


A mamã sempre foi forte; hoje sei que quem é forte leva no cepo com os valores por outros instituídos, prescritos como benesses sociais. A mamã era boa cachopa: trabalhadeira como as modernas, herege como as modernas, fodida como as antigas (palavras sábias da vovó inconformada por ver a neta sem mãe). Levaram-na de robe, num domingo de manhã. Sete age
ntes armados de arrogância e cágados que, por detrás de tanto autoritarismo escondiam a incapacidade de assumir o medo de se conhecerem como um nada; um nada tão nulo para eles como perigoso para quem os enfrentasse! Assim os vi invadindo a casa, de mandato na mão, arautos da justiça e bem viver! A mamã, reencarnação de uma guerrilheira qualquer, grita a plenos pulmões : "Ninguém revista divisão nenhuma sem a minha presença!" Os bófias bufafam... Os bufos bufavam... Eu, enjeitada adolescente, gorda como pipa de vinho, lá me atrapalhei: "Mamã que te levam...", lágrimas nos olhos e resposta esbofeteada nas ventas. "Deixa levar. Precisas de mim para quê? Já não cresceste?"
Quis-lhe dizer que não. Que era pequenina e lhe necessitava do colo. Que ela não podia ir para a prisão apenas porque alguém não a queria na rua!
A busca desavergonhada foi feita com leitura do meu diário... Aqueles, aqueles... aqueles senhores, protetores da lei e da ordem, riam do meu drama, das minhas dores de crescimento, dos meus amores escondidos.
Levaram a mamã e, o meu irmão, outro enjeitado com forma de aranhiço, agarrado às minhas pernas, de cabecita enconstada á minha anca roliça, perguntando se fariam mal à progenitora.
Que não, respondia eu, com as lagrimas cravadas na garganta, entendendo a sede de matar pela primeira vez na vida, entendendo a necessidade de vingar a confusão do meu pequeno amor encostado à minha anca roliça... Cabrões, cabrões, cabrões. Insultos calados que o pequeno precisava de ser vestido e o pai, o meu Romeu por Freud enviado, foi atrás do carro patrulha, observando as algemas, respirando em golfadas curtas com o pavor do sofrimento da sua Julieta!
O tempo passando, os advogados passando, o processo passando. O meu 18º aniversário. Amigos em casa e o telefone tocando. Sentada ouvi a festa longe e a mamã pertinho de mim, do outro lado cantando "Parabéns a voce, nesta data querida..." E eu soluçando, gemendo baixinho aceitando a morte mais facilmente que este roubo conspurcado, este nojo de se viver num estado que leva o coração às gentes.
Eles estarão sempre do lado de lá mas nós, a família louca, desavinda que se deseja como quem respira, do lado de cá... dentro!