quinta-feira, 4 de abril de 2013

A fidelidade dos indigentes



Se a função espiritual da existência da infidelidade fosse medir a capacidade de retidão,  seria levada a concluir que os castramentos emocionais são, consideravelmente menos violentos quando comparados com a falta de necessidades dos que não são tentados.
Nestes moldes,  analisando o paradigma do pecado, ou da condenação, não podemos colocar em pé de igualdade quem é/foi tentado e os que, por incapacidade emocional, discursam de modo bíblico a respeito da nefanda epopeia dos traidores.
Ou seja, se convencionarmos que o puro é o que luta contra as investidas do desejo, exprimindo assim a veracidade de uma vontade de crer na eternização do amor, passaremos a adjectivar como vazio o ser impenetrável  o que nunca se sente tentado.O não tentado, pode ser o que não tem capacidade de reagir a estímulos novos, "deficiência" que podemos vincular a uma certa habituação ao "amor" pelo outro e nunca à vivencia da essência do verbo.
No entanto, admitir que há tentação e que preferimos a não cedência  deixa-nos com outro problema. Se sou tentado estarei na obrigação de respeitar o vínculo associado a um compromisso ou, pelo contrário, terei que sobrepor a vontade do eu aos receios que me são externos? Deverei preterir a minha mágoa com o medo da dor do outro?
Não há como concluir se o mal radica na compartimentação do desejo, o que pode pressupor um desrespeito pela nossa liberdade individual ou se o que está errado é o conceito de retidão moral. Isto porque, o desejo em si é condenado antes de qualquer concretização.
O que me leva a esta reflexão é o preto e o branco com que tanta gente avalia as relações que lhes são alheias. Mais do que isso, aterroriza-me o facilitismo da condenação como se houvesse alguém que ainda acredite que pode algo contra si próprio, estando certos do seu futuro romântico .. Vende-se a moral em pequenos pacotes cujo rótulo deveria dizer "contra testes em mim próprio"
Somente o ser confrontado com estas dicotomias pode dizer que respeita a assunção da dificuldade de discernir sensações e as suas repercussões.

Quem ama conhece a inevitabilidade do questionamento, a obrigatoriedade de adaptação... Só questionando se pode optar. Mais: só tendo escolha se pode optar!

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