quarta-feira, 25 de abril de 2012
Cravos e espinhos
Tenho um pai como o de muitos vós, que me falou, desde pequenina, do que era levantar-se com frio e com fome para apanhar a palha para a vaca leiteira da casa. De como ia de Sto Varão a Coimbra a pé, para ouvir os ensinamentos primários. Como foi a guerra, de como partiu para o ultramar com a morte no espirito, não avisando ninguém, não tendo quem dele se despedisse. De como regressou e acordou um dia, sem mexer as pernas devido aos ferimentos e chorou ouvindo na rádio como se fazia a revolução que tanto ansiava. Um pai que me apresentou aos amigos mutilados nas carnes e no espiritico. Amigos que o acompanharam e me agarravam nas mãos em cada manifestação, em cada comemoração do 25 de Abril. Amigos que vi morrerem, amigos que se mataram porque há minas que não rebentam a não ser dentro de cada um. Cotos que sangravam á minha frente do esforço de andar a calcorrear as ruas de cravo na mão e que me diziam e mostravam que há passos tão maiores que qualquer perna. Por esta gente, que choro todos os dias, por esta gente que me assombra o reacionarismo, nunca esqueço, nunca desisto, nunca me enfado de gritar: liberdade, liberdade, liberdade. Viva o 25 de Abril!
terça-feira, 24 de abril de 2012
Francisco de Abril e os capitães de Assis
Acabadinha de acordar, depois de sonhos inquietos, que me custam as comemorações e as publicitações de recusas participativas em forma de diamantes brutos, na véspera do dia da liberdade, vejo o programa da "Sessão Festiva do 38º Aniversário da Revolução de 25 de abril de 1974" no site da Camara Municipal de Coimbra.
Primeiro respiro fundo, julgando os olhos ainda presos de sono e questionando a minha capacidade visual, depois apercebo-me, não só da veracidade do que leio mas também da coerencia do que é proposto! "Palestra proferida pelo Padre Vítor Melícias – “Espírito de Assis, espírito de Abril”
Não querendo retirar qualquer legitimidade a esta palestra (ahahahah!) ocorreram-me umas tantas ideias para o seu inicio, caso o diabo se lembrasse de me mandar fazer uma composição com este titulo. Ora aqui vai.
"Francisco de Assis foi o primeiro frade mendicante a fazer a pregação da palavra de Cristo de forma itinerante. Revolucionou através da palavra e através da pobreza a que se votou, aproximando-se, desta forma, dos mais humildes que tanto precisavam de conforto. Tal como este frade revolucionou e abalou a imagem da Igreja Católica, permitindo ao povo a compreensão de que a palavra de Cristo não era dedicada ou entregue aos mais poderosos, assim o povo de hoje, através da libertação de Abril, se apercebeu de que os sacrifícios, a mendicidade, a inerrância e por fim, a compreensão de todos os animais da terra é necessária. Todos os apertos exigidos, os sistemáticos pedidos da parte dos governantes para que a paciência e compreensão fiscal não sejam vistos como ataques, são os pedidos implícitos de Francisco de Assis á população de outrora. Dos pobre será o reino dos céus!"
Fico eu num limbo tramado sem saber se chame o Otelo, se me envergonhe pelos que tanto respeito e tanto lutaram pela liberdade, ou se arrulhe a palavra de Deus aos ouvidinhos desta gente que mais parece masturbarem a consagração do conservadorismo mascarando-a da arte de bem fazer amor (que me quero educada!) com as datas que só marcam quem delas conhece o significado... A CMC não deve ter orçamento para mais que uma palestra sobre o mendicante e a palavra de Nosso Senhor mas com certeza que convence com tanta bombinha de mau cheiro... E mais me apraz pensar que, se o nosso de Assis por aqui cirandasse teríamos muitos mais burros de quatro patas a encher púlpitos que nabos no hemiciclo que não estaria este para compactuar com tanta pobreza de espírito!
Talvez que, como nota explicativa sobre a decisão de fazer esta palestra, o Padre Melicias comece com a Palavra de Francisco de Assis: "Começa por fazer o que é necessário, depois o que é possível, e de repente, estarás a fazer o impossível!" A CMC conseguiu...
domingo, 22 de abril de 2012
A imaterialidade da arrogancia
Durante a noite de hoje fui visitada por uma ideia. Visita recorrente que transforma as minhas duvidas num diálogo benfazejo entre a minha pessoa e uma amiga que a leucemia levou quando ambas tínhamos sete anos de idade.
A Laura sentou-se, com as pequeninas pernas cruzadas, com os seus olhos escuros meio encobertos pela franja e esperou que eu dissesse o porquê de a ter chamado. Respirei fundo, com as lágrimas a quererem afogar-me o peito.
"- Sinto que sou melhor do que os outros..."
"- E choras por teres descoberto que és tão arrogante como a maioria das pessoas que habitam o planeta?"
"- Não. Choro porque quase todas elas conseguem comprovar isso, senão aos outros, pelo menos a si próprias. Já eu não me sinto capaz nem de uma nem de outra coisa!"
Lambi as comissuras da boca pastosa; percebi que estava demasiado emocionada para prosseguir e deixei-a retomar a conversa.
"- O que tu sentes, querida amiga, é que não terás sucesso, que não te conseguirás destacar dos demais e, por conseguinte, que falhaste no sonho de seres admirada. O que resta que descubras é que andas demasiado ocupada a sentir e pouco inclinada a concretizar."
"- Não... Se eu concretizo isso significa que me transformo num ser em poder de todas as suas faculdades e..."
"- ... Por consequência, melhor para uns, pior para outros, mas igual para ti. Sendo que és demasiado arrogante para aceitares que és de facto igual a todas as insignificâncias que tanto te assustam!"
"- Precisamente! No entanto, também me consciencializei que, este não querer fazer para não estar inserida, equivale a uma sanidade defensiva que me torna..."
"- Igual."
A Laura sorriu-me saboreando a partilha da insanidade momentânea.
Sempre me soubera colocar no lugar certo com palavras pequenas. À medida que a morte a distanciava de quem fora e a aproximava de quem eu queria que ela viesse a ser, tornara-se mais provocatória, quase acintosa.
"- Mas como te propões ser diferente se sabes que todos os traços de personalidade foram e são neste mesmo espaço em que vives? Como alterar a existência provocando essa reforma de carácter que tanto buscas e que não seria compreendida, quando concretizada, por ti ou pela restante sociedade? Optas pela loucura, criminalidade, beatificação, niilismo absolutista? Como te queres comer mantendo-te viva? Como ser o que não existe?"
"- Mas tenho que arranjar maneira de permanecer diferente... de ser... eu!"
"- És uma compilação, uma deformação de verdades que acabam por ter variantes mais ou menos escabrosas a partir do momento em que as tentas desvendar. Um universo como outros tantos milhares que acabará esquecido e resguardado pelo pó se, tiveres a sorte de ter alguém que venha a ter conhecimento da tua partida. O que te digo é que chores o que tens para chorar e que te mantenhas inconformada... Igual mas pelo menos um tanto ou quanto original... Mas isto é apenas a minha opinião!"
A Laura sentou-se, com as pequeninas pernas cruzadas, com os seus olhos escuros meio encobertos pela franja e esperou que eu dissesse o porquê de a ter chamado. Respirei fundo, com as lágrimas a quererem afogar-me o peito.
"- Sinto que sou melhor do que os outros..."
"- E choras por teres descoberto que és tão arrogante como a maioria das pessoas que habitam o planeta?"
"- Não. Choro porque quase todas elas conseguem comprovar isso, senão aos outros, pelo menos a si próprias. Já eu não me sinto capaz nem de uma nem de outra coisa!"
Lambi as comissuras da boca pastosa; percebi que estava demasiado emocionada para prosseguir e deixei-a retomar a conversa.
"- O que tu sentes, querida amiga, é que não terás sucesso, que não te conseguirás destacar dos demais e, por conseguinte, que falhaste no sonho de seres admirada. O que resta que descubras é que andas demasiado ocupada a sentir e pouco inclinada a concretizar."
"- Não... Se eu concretizo isso significa que me transformo num ser em poder de todas as suas faculdades e..."
"- ... Por consequência, melhor para uns, pior para outros, mas igual para ti. Sendo que és demasiado arrogante para aceitares que és de facto igual a todas as insignificâncias que tanto te assustam!"
"- Precisamente! No entanto, também me consciencializei que, este não querer fazer para não estar inserida, equivale a uma sanidade defensiva que me torna..."
"- Igual."
A Laura sorriu-me saboreando a partilha da insanidade momentânea.
Sempre me soubera colocar no lugar certo com palavras pequenas. À medida que a morte a distanciava de quem fora e a aproximava de quem eu queria que ela viesse a ser, tornara-se mais provocatória, quase acintosa.
"- Mas como te propões ser diferente se sabes que todos os traços de personalidade foram e são neste mesmo espaço em que vives? Como alterar a existência provocando essa reforma de carácter que tanto buscas e que não seria compreendida, quando concretizada, por ti ou pela restante sociedade? Optas pela loucura, criminalidade, beatificação, niilismo absolutista? Como te queres comer mantendo-te viva? Como ser o que não existe?"
"- Mas tenho que arranjar maneira de permanecer diferente... de ser... eu!"
"- És uma compilação, uma deformação de verdades que acabam por ter variantes mais ou menos escabrosas a partir do momento em que as tentas desvendar. Um universo como outros tantos milhares que acabará esquecido e resguardado pelo pó se, tiveres a sorte de ter alguém que venha a ter conhecimento da tua partida. O que te digo é que chores o que tens para chorar e que te mantenhas inconformada... Igual mas pelo menos um tanto ou quanto original... Mas isto é apenas a minha opinião!"
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Maternidade e a estética "amamentícia"
Um destes dias tive conhecimento de uma cena passada numa repartição de finanças. Uma situação que nada tinha a ver com o corriqueiro de pedidos e extravios numéricos. Não! Foi uma questão de mamas. Passo a explicar:
Uma jovem mãe senta-se com o seu pequeno rebento que, não tarda muito, desata num berreiro. A jovem, tentando calar o menino, saca da abençoada mama e espeta-lha na boca. Ao que parece resultou! O menino ficou calado enquanto chuchava mas, olhando em volta, a mamã deparou-se com o olhar de soslaio de um senhor idoso. Irritou-se a abençoada imaculada e desatou ela, desta feita, num berreiro que (digo eu!) não haveria chucha que calasse.
Quando soube do acontecido dei conta da minha indignação egoísta... O que me irritava na situação era a propensão que há para se aceitar a "exibição" do seio com leite e resguardar o seio seco.
Houve logo umas quantas senhoras que me transmitiram que sim, há diferenças entre uma mama com leite e uma sem. Que a exibição da primeira é imagem terna e que, a exibição da segunda pode ser erótica mas deve ser gerida com parcimónia. Bem, de nada me valeu tentar explicar que não era meu objectivo sacar das minhas margaridas em plena repartição de finanças para que estas não se sentissem marginalizadas.
Incomodada com os ditos e desditos fui conversando com uma data de mães que, não só me entenderam como fizeram acrescentos deliciosos ao meu pensamento. Uma delas, com dois filhos, também agastada com o excesso de embelezamento da maternidade e aleitamento, disse-me que de cada vez que pensava na altura em que amamentou lhe doíam os bicos e que a filha mais velha, ao olhar para os seios da mãe disse:
"- Ó mamã, tens que pedir ao papá para te arranjar as maminhas!"
Claro que a menina, habituada a ver o pai a trocar lâmpadas e a arranjar electrodomésticos lá por casa, achou o comentário apropriado.
Onde quero eu chegar com isto?
Em nada me incomoda que a natureza faça deste acto algo necessário e, neste sentido, corriqueiro. Mas também não me incomoda não gostar de ver os meninos agarrados ás tetas em qualquer canto deste promontório abençoado por Deus! Incomoda-me sim, que haja uma geração de mulheres que façam gala do superlativo da maternidade como se, antes do acontecido, fossem menos mulheres, menos dignas na sua sexualidade ou beleza feminina. Acho a maternidade bela. Isto tendo em conta que a maternidade é para mim o acto de cuidar, criar e educar e não a fisiologia da coisa. É que quando me dão com o argumento de que amamentar é uma coisa normal e até as vaquinhas o fazem em publico, vêm-me à memória variados actos perpetrados pelas ditas mugideiras que, a serem copiados por nós em qualquer pasto ou rotunda, era gajo para dar cadeia!
Mas isto é só a minha opinião!
Uma jovem mãe senta-se com o seu pequeno rebento que, não tarda muito, desata num berreiro. A jovem, tentando calar o menino, saca da abençoada mama e espeta-lha na boca. Ao que parece resultou! O menino ficou calado enquanto chuchava mas, olhando em volta, a mamã deparou-se com o olhar de soslaio de um senhor idoso. Irritou-se a abençoada imaculada e desatou ela, desta feita, num berreiro que (digo eu!) não haveria chucha que calasse.
Quando soube do acontecido dei conta da minha indignação egoísta... O que me irritava na situação era a propensão que há para se aceitar a "exibição" do seio com leite e resguardar o seio seco.
Houve logo umas quantas senhoras que me transmitiram que sim, há diferenças entre uma mama com leite e uma sem. Que a exibição da primeira é imagem terna e que, a exibição da segunda pode ser erótica mas deve ser gerida com parcimónia. Bem, de nada me valeu tentar explicar que não era meu objectivo sacar das minhas margaridas em plena repartição de finanças para que estas não se sentissem marginalizadas.
Incomodada com os ditos e desditos fui conversando com uma data de mães que, não só me entenderam como fizeram acrescentos deliciosos ao meu pensamento. Uma delas, com dois filhos, também agastada com o excesso de embelezamento da maternidade e aleitamento, disse-me que de cada vez que pensava na altura em que amamentou lhe doíam os bicos e que a filha mais velha, ao olhar para os seios da mãe disse:
"- Ó mamã, tens que pedir ao papá para te arranjar as maminhas!"
Claro que a menina, habituada a ver o pai a trocar lâmpadas e a arranjar electrodomésticos lá por casa, achou o comentário apropriado.
Onde quero eu chegar com isto?
Em nada me incomoda que a natureza faça deste acto algo necessário e, neste sentido, corriqueiro. Mas também não me incomoda não gostar de ver os meninos agarrados ás tetas em qualquer canto deste promontório abençoado por Deus! Incomoda-me sim, que haja uma geração de mulheres que façam gala do superlativo da maternidade como se, antes do acontecido, fossem menos mulheres, menos dignas na sua sexualidade ou beleza feminina. Acho a maternidade bela. Isto tendo em conta que a maternidade é para mim o acto de cuidar, criar e educar e não a fisiologia da coisa. É que quando me dão com o argumento de que amamentar é uma coisa normal e até as vaquinhas o fazem em publico, vêm-me à memória variados actos perpetrados pelas ditas mugideiras que, a serem copiados por nós em qualquer pasto ou rotunda, era gajo para dar cadeia!
Mas isto é só a minha opinião!
Um destes dias dei por mim a arengar contra um país, para o caso o meu, de gente opinativa... Um proliferar de comentadores, informadores, políticos e cidadãos em geral que se consideram vozes activas e a levar a sério. Irritei-me, e... dei a minha opinião a respeito do excesso de opiniões. Por não me sentir satisfeita com o facto de não me fazer ouvir (ó santa incongruência!) decidi fazer uma página dedicada (vejam bem ) à minha opinião. E assim aqui me têm! Aqui vai marisco!
Assinar:
Postagens (Atom)