Escutei hoje um programa sobre o estado da democracia em Portugal...
Escutei com a paciência costumeira de quem julga que as suas ideias são melhores que as dos outros e ouvi os "outros" dizendo que as deles eram melhores que as minhas. Um programa como deve ser, ou como costuma ser, diga-se antes assim.
Eis senão quando, no meio de intervenções sociológicas, se começa a falar sobre a abstenção.
Aqui parei o carro julgando-me à beira de um ataque de nervos. Todos temos a nossa forma de encarar as coisas; beleza e vicissitudes democráticas, mas, há umas quantas, que por mais desenhos que me façam não me enfiam goela abaixo nem com mel.
Dizia-se então que a abstenção deveria ser já por si vinculativa (foi aqui que parei o veículo!)... Esperei porque não conseguia descortinar o que quereria significar o carácter vinculativo da abstenção.
Sentindo-me obtusa e cada vez mais próxima do meu lado ditatorial, oiço a explicação: Ora, ao que parece, haveria uma contagem estatística de votos e, portanto, quantos menos votos menos lugares na Assembleia da República.... Conclusão de quem falava: "Desta forma haveria uma triagem dos maus políticos que não chegariam a ser eleitos por não haver lugar no parlamento". Fiquei muito quieta durante uns segundos pensando no que acabara de ouvir. Todos sabemos que os políticos, quanto mais visibilidade têm mais competentes são. E, não sendo esta a elação que daqui se tira, também todos sabemos que os que singram na vida partidária são, sempre, os mais sérios!
Puxo do meu, quase esquecido, catolicismo, sentindo o tremor da mão que me quer benzer.
De seguida fala-se da obrigatoriedade de voto. O voto, ao que parece, não deve ser obrigatório porque, sendo transformado num dever, se torna a antítese da democracia.
Eu também acho!!! Julgo aliás que, vivendo numa democracia saudável todos temos o direito de ser anti- democratas, anti-monárquicos ou anti-pragmáticos... Porque assim sendo, seguindo esta corrente de pensamento, aos que me dizem que não votam por não acreditarem no sistema politico, não deveria ser dado o direito (democrático!) de emitirem opiniões sobre as politicas dos governantes que, convenientemente, não ajudaram a colocar no poleiro bem como não contrariaram a sua subida ao poder.
Voltando à minha ditadura de ser pensante; como posso escutar que a malta que vota devia ter benesses fiscais para que assim houvesse uma justificação para a viagem tormentosa até às urnas?! Que não faz sentido que as pessoas tenham que se deslocar para exercer o direito de voto e permitir que estejam lá sempre os mesmos gandulos. Pois estão SEMPRE os mesmo estão, vá lá o diabo concluir porquê!
Por mim, num estado de intervenção cívica consciente, só se manifestava, queixava e lutava pelos seus direitos quem respeita a comunidade, quem dá valor ao facto de podermos marcar a diferença papelinho a papelinho. Bardamerda para estes democratas por conveniência!
terça-feira, 15 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
O meu fantasma predilecto
Acordei cansada de tanto andar...
Assim que fechei os olhos regressaste. Levaste-me de novo para perto das vacas. Estava eu, pequena, de vestido vermelho arrancando as tranças que me fizeras com tanta ternura, de fronte para a mimosa, tocando no nariz cor de rosa e húmido.
"- Joaninha, não mexas nas vaquinhas." - dizias com as mãos metidas na mistura de ração que preparavas para o almoço das leiteiras malhadas.
Fazia sempre de conta que não te escutava e a mimosa, como forma de me agradecer o carinho, metia a enorme língua dentro de uma narina e lambia-me o rosto atirando-me ao chão. Ouvia-te rir, disfarçadamente, no canto do estábulo.
Depois desviava-me dos teus cuidados para fazer castelos dentro dos montes de feno.
"- Joaninha não mexas no feno." - dizias tentando que eu não passasse a noite ao teu colo de costas desnudas e borbulhentas enquanto as enchias de alcool canforado para que se acalmassem as comichões.
Eu sonhava com melhores dias para os borrachos que matavas em fila. Dizias ter pena que os bichos assistissem à morte dos seus parentes e fizeste uma máquina que os decepava a todos de uma "penada".
Agarravas-me ao colo e prometias-me que os caracóis que me emolduravam o rosto me fariam casar jovem com um príncipe de um reino distante.
"- Ele tem um lago com patos?" - perguntei-te.
No dia seguinte, depois de me colocares perto da mimosa, foste, de enxada na mão, para o terreno de pasto. Cavaste, cavaste, cavaste.
Três dias depois sabia que eras o meu príncipe encantado. E eu tinha um lago com patos.
Pão com marmelada, leite fresco... Eu comia deleitada, tu ias-me despindo para me dares banho. Tiravas os fios de palha do meu cabelo, os carrapatos do vestido. Lavavas as minhas meias no tanque de cimento porque sabias que tinha saudades do cheiro do tanque comunitário de Santo Varão. Correste todos os sabões até acertares com o cheiro que eu dizia recordar de quando para lá ia com os pés atentos à espuma e os ouvidos às cantorias das viúvas.
A água que me passavas no corpo estava sempre morna. Não me deitavas champô nos olhos, não me fazias uma beliscadura ao pentear-me os cabelos emaranhados.
"- Joaninha tens um ninho na cabeça."
"- Um ninho de quê vovô?"
"- Um ninho de amor..." - concluías com um beijinho repenicado na cabeça, e eu, deleitada, jogava os braços ao teu pescoço já morta de saudades tuas.
Na loja avisavas-me quando apareciam as velhas de bigode que me feriam a cara com os mimos excessivos a que não tinham direito. Fazias-me sinal e eu ficava alojada a teus pés, por debaixo do balcão de madeira, descascando caramelos.
Recordei, dormindo, o nosso reencontro. Tu de olhos rasos de lágrimas no recreio do colégio. Um momento de hesitação e o grito alto para os meus amiguinhos - "- Aquele avô é o meu!"
Vovô tenho tantas saudades de nós meu amor.
Acordei cansada e chorei até me doerem os pulmões.
Nunca ninguém me fez eclodir beijinhos no meu ninho, ninguém me fez lagos, ninguém foi condescendente com os meus disparates, ninguém gastou tempo procurando os cheiros que me dão prazer.
Depois de comer algo doce nunca bebo água... Tu dizias que se o fizesse o sabor da guloseima não teria durado quanto podia. Deixei de beber água depois de tudo o que me dá prazer...
A bênção, meu fantasma predilecto.
domingo, 6 de maio de 2012
o útero e os seu feijões
Dia da mãe.
Tenho uma, apesar de haver rumores de que nasci por geração espontânea. A minha é das rijas. Uma mulher de críticas e arrogâncias, de poucas humildades e de humor acutilante. Uma menina honesta que, às duas por três, me pergunta porque sofro, visto que, ficando em casa a fazer malha em vez de me pôr com saídas e arejamentos, nenhum sofrimento me caberia.
Eu tenho uma mãe inacreditável em todos os sentidos. Uma catraia que ombreia comigo em tudo menos no receio de que a vida lhe roube os sonhos.
A minha Fernandinha tem o condão de me tirar do sério em quase todos os discursos que me faz... Tem a capacidade de me ensinar a ser mulher e a não alimentar os meus medos; a encarar os adultos como adolescentes mais velhos, a entender que as verdades dependem do universo de cada um.
A minha Fernandinha acarinha-me como sabe... Por vezes com o colo que, apesar do meu metro e oitenta, ainda me dá, outras com o arremesso de um chinelo.
Mãe há só uma, graças a Deus. Porque é difícil gerir o bem que nos sabe tê-las e saber que não nos pertencem; porque as queremos perto e eternas, nunca envelhecidas ou cansadas e, muito menos de partida...
A minha Fernandinha é avariada mas não tem uma só peça estragada. É aquela mulher horrorosa, que levava a piquena á praia, passeando a sua barriguinha negativa num biquini reduzido e se divertia a tirar a comida da boca da cria para ela não ficar pançuda. Era ver oferendas de sugos voarem pela janela a minha infância toda! Mas o cuidado com que me regava os vegetais com sumo de limão não tem explicação.
A minha Fernandinha é inconcebível... Acredita que sou pura até quando me pergunta de que cor será o meu vestido de casamento e se quero um raminho de flores de laranjeira nesse dia, entre gargalhadas de valor cósmico.
A minha Fernandinha estudava comigo ao colo e dava-me papa antes de servir o meu maninho recém nascido para que eu soubesse que este não me roubara o seu amor.
A minha Fernandinha ensinou-me a amar a vida, quando me fez dizer adeus ao meu pai que se julgava estar a morrer numa cama de hospital, quando eu tinha 5 anos.
A minha Fernandinha é uma fantasista inveterada que me acaricia os caracóis até nos dias de maior exaltação... É minha, minha, minha... Deixou-me crescer dentro dela e teve a hombridade de me oferecer ao mundo ao invés de mo dar. Escolheu o meu papá com o cuidado de quem escolhe um bom exemplo e deu-me o meu irmão que é o rapaz mais carinhoso e mais perfeito com que já regalei a vista.
É minha, minha, minha...
Tenho uma, apesar de haver rumores de que nasci por geração espontânea. A minha é das rijas. Uma mulher de críticas e arrogâncias, de poucas humildades e de humor acutilante. Uma menina honesta que, às duas por três, me pergunta porque sofro, visto que, ficando em casa a fazer malha em vez de me pôr com saídas e arejamentos, nenhum sofrimento me caberia.
Eu tenho uma mãe inacreditável em todos os sentidos. Uma catraia que ombreia comigo em tudo menos no receio de que a vida lhe roube os sonhos.
A minha Fernandinha tem o condão de me tirar do sério em quase todos os discursos que me faz... Tem a capacidade de me ensinar a ser mulher e a não alimentar os meus medos; a encarar os adultos como adolescentes mais velhos, a entender que as verdades dependem do universo de cada um.
A minha Fernandinha acarinha-me como sabe... Por vezes com o colo que, apesar do meu metro e oitenta, ainda me dá, outras com o arremesso de um chinelo.
Mãe há só uma, graças a Deus. Porque é difícil gerir o bem que nos sabe tê-las e saber que não nos pertencem; porque as queremos perto e eternas, nunca envelhecidas ou cansadas e, muito menos de partida...
A minha Fernandinha é avariada mas não tem uma só peça estragada. É aquela mulher horrorosa, que levava a piquena á praia, passeando a sua barriguinha negativa num biquini reduzido e se divertia a tirar a comida da boca da cria para ela não ficar pançuda. Era ver oferendas de sugos voarem pela janela a minha infância toda! Mas o cuidado com que me regava os vegetais com sumo de limão não tem explicação.
A minha Fernandinha é inconcebível... Acredita que sou pura até quando me pergunta de que cor será o meu vestido de casamento e se quero um raminho de flores de laranjeira nesse dia, entre gargalhadas de valor cósmico.
A minha Fernandinha estudava comigo ao colo e dava-me papa antes de servir o meu maninho recém nascido para que eu soubesse que este não me roubara o seu amor.
A minha Fernandinha ensinou-me a amar a vida, quando me fez dizer adeus ao meu pai que se julgava estar a morrer numa cama de hospital, quando eu tinha 5 anos.
A minha Fernandinha é uma fantasista inveterada que me acaricia os caracóis até nos dias de maior exaltação... É minha, minha, minha... Deixou-me crescer dentro dela e teve a hombridade de me oferecer ao mundo ao invés de mo dar. Escolheu o meu papá com o cuidado de quem escolhe um bom exemplo e deu-me o meu irmão que é o rapaz mais carinhoso e mais perfeito com que já regalei a vista.
É minha, minha, minha...
terça-feira, 1 de maio de 2012
Rentabilização dos vinte contos
Passei a tarde em ânsias analisando as minhas paixões e sendo engolida por racionalizações quanto ao que se passou com o Pingo Doce no nosso estimado dia do trabalhador. Aos que pouco me conhecem tenho-me como uma comunista reaccionária o que não me deixa, a mais das vezes, bem vista por nenhuma facção ideológica. Mas esta permissão que dou a umas ideias de deglutirem outras não me torna menos presente, menos consequente ou menos interventiva como cidadã. Desta feita fico, não dividida, mas numa completude estupefacta perante a grandeza de inteligência do marketing do grupo Jerónimo Martins.
Aos mais distraídos escapou a polémica do dia 30 de Abril em que sindicatos alertaram para o facto de, várias grandes superfícies (grupo Jerónimo Martins incluso), terem pressionado os seus trabalhadores a não exercerem o seu direito à greve, tendo sido avisados pelos seus superiores hierárquicos, de que seriam sancionados no caso de a ela aderirem. Ora, no dia seguinte, abre o PD as portas com uma promoção alucinogéna de 50 % de desconto em compras superiores a 100 euros. Em primeiro lugar nunca deu tanto jeito aos poderosos que o dia do trabalhador e o feriado a que ele se refere fosse num dia 1. Famílias com dificuldades financeiras e que, ainda assim teriam que encher a dispensa, lá foram em romaria, tendo o salário já dado entrada (a maior parte das vezes) na desfalcada conta bancária!
Em segundo lugar, o que foi "demonstrado" aos sindicatos é que o povo adere às ideias de quem o alimenta e não às de quem diz que ele deve lutar para se alimentar.
Conheço muitas pessoas que aderiram a esta escatologia comercial; pessoas que admiro e respeito do mesmo modo que respeitarei as que, com o avançar do tempo, e sem 100 euros para aderir a tais "eventos", se lembrem de invadir os supermercados servindo-se a seu bel-prazer.
Já ouvi palavras bonitas dizendo que esta iniciativa deveria dar-se mais vezes para que, a bem das leis da concorrência, levadas pelo bem estar económico, as empresas, fossem obrigadas a descer os preços. Pois seria muito belo que o fizessem não fosse este caso ter-se dado com um salazarista mais ditatorial que o próprio que em tantas entrevistas já mencionou o que acha que o povo deve fazer e como o lado humanitário de um país deve ser visto.
Tendo ouvidos e bons olhos confesso que o cansaço a que tantos já se votaram também já me chegou ao lombo e, apesar de não me passar pela cabeça ir "feirar" no dia do trabalhador também não levantei o meu traseiro ressacado da cama para acompanhar as pessoas valorosas que se reuniram em manifestações, por esse país fora em nome dos cegos, dos preguiçosos, dos presunçosos, e de tantos outros "osos" que por ai pululam.
Se resolvi escrever sobre este assunto não foi para bater palmas ao PD e ao seu Senhor que tão bem disposto deve estar, dizendo de si para si que povo pobre obedece e não morde. Também não o faço aos sindicatos, apesar do respeito que lhes tenho, idem para a população que, abrindo mão (ou não) dos seus valores ali se dirigiu.
O meu aplauso vai para os que, continuam a acreditar na inteligência do seu povo, que continuam a lutar pelos seus ideias e unificação de um país. Não estive em nenhuma das manifestações, nenhuma festa que marcasse a data mas prometi, coberta com a vergonha de uma antiga sonhadora que se perdeu nas racionalizações fáceis do "não serei eu a marcar a diferença" ou "lutar por quem não quer já me chega", que serei parte integrante deste sonho em que a interajuda e o idealismo valem mais do que o colonialismo monetário.
Quanto ao Sr. Soares dos Santos... Bem, é impressionante como um merceeiro consegue mostrar os seus pontos de vista num país como este!
Aos mais distraídos escapou a polémica do dia 30 de Abril em que sindicatos alertaram para o facto de, várias grandes superfícies (grupo Jerónimo Martins incluso), terem pressionado os seus trabalhadores a não exercerem o seu direito à greve, tendo sido avisados pelos seus superiores hierárquicos, de que seriam sancionados no caso de a ela aderirem. Ora, no dia seguinte, abre o PD as portas com uma promoção alucinogéna de 50 % de desconto em compras superiores a 100 euros. Em primeiro lugar nunca deu tanto jeito aos poderosos que o dia do trabalhador e o feriado a que ele se refere fosse num dia 1. Famílias com dificuldades financeiras e que, ainda assim teriam que encher a dispensa, lá foram em romaria, tendo o salário já dado entrada (a maior parte das vezes) na desfalcada conta bancária!
Em segundo lugar, o que foi "demonstrado" aos sindicatos é que o povo adere às ideias de quem o alimenta e não às de quem diz que ele deve lutar para se alimentar.
Conheço muitas pessoas que aderiram a esta escatologia comercial; pessoas que admiro e respeito do mesmo modo que respeitarei as que, com o avançar do tempo, e sem 100 euros para aderir a tais "eventos", se lembrem de invadir os supermercados servindo-se a seu bel-prazer.
Já ouvi palavras bonitas dizendo que esta iniciativa deveria dar-se mais vezes para que, a bem das leis da concorrência, levadas pelo bem estar económico, as empresas, fossem obrigadas a descer os preços. Pois seria muito belo que o fizessem não fosse este caso ter-se dado com um salazarista mais ditatorial que o próprio que em tantas entrevistas já mencionou o que acha que o povo deve fazer e como o lado humanitário de um país deve ser visto.
Tendo ouvidos e bons olhos confesso que o cansaço a que tantos já se votaram também já me chegou ao lombo e, apesar de não me passar pela cabeça ir "feirar" no dia do trabalhador também não levantei o meu traseiro ressacado da cama para acompanhar as pessoas valorosas que se reuniram em manifestações, por esse país fora em nome dos cegos, dos preguiçosos, dos presunçosos, e de tantos outros "osos" que por ai pululam.
Se resolvi escrever sobre este assunto não foi para bater palmas ao PD e ao seu Senhor que tão bem disposto deve estar, dizendo de si para si que povo pobre obedece e não morde. Também não o faço aos sindicatos, apesar do respeito que lhes tenho, idem para a população que, abrindo mão (ou não) dos seus valores ali se dirigiu.
O meu aplauso vai para os que, continuam a acreditar na inteligência do seu povo, que continuam a lutar pelos seus ideias e unificação de um país. Não estive em nenhuma das manifestações, nenhuma festa que marcasse a data mas prometi, coberta com a vergonha de uma antiga sonhadora que se perdeu nas racionalizações fáceis do "não serei eu a marcar a diferença" ou "lutar por quem não quer já me chega", que serei parte integrante deste sonho em que a interajuda e o idealismo valem mais do que o colonialismo monetário.
Quanto ao Sr. Soares dos Santos... Bem, é impressionante como um merceeiro consegue mostrar os seus pontos de vista num país como este!
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Cravos e espinhos
Tenho um pai como o de muitos vós, que me falou, desde pequenina, do que era levantar-se com frio e com fome para apanhar a palha para a vaca leiteira da casa. De como ia de Sto Varão a Coimbra a pé, para ouvir os ensinamentos primários. Como foi a guerra, de como partiu para o ultramar com a morte no espirito, não avisando ninguém, não tendo quem dele se despedisse. De como regressou e acordou um dia, sem mexer as pernas devido aos ferimentos e chorou ouvindo na rádio como se fazia a revolução que tanto ansiava. Um pai que me apresentou aos amigos mutilados nas carnes e no espiritico. Amigos que o acompanharam e me agarravam nas mãos em cada manifestação, em cada comemoração do 25 de Abril. Amigos que vi morrerem, amigos que se mataram porque há minas que não rebentam a não ser dentro de cada um. Cotos que sangravam á minha frente do esforço de andar a calcorrear as ruas de cravo na mão e que me diziam e mostravam que há passos tão maiores que qualquer perna. Por esta gente, que choro todos os dias, por esta gente que me assombra o reacionarismo, nunca esqueço, nunca desisto, nunca me enfado de gritar: liberdade, liberdade, liberdade. Viva o 25 de Abril!
terça-feira, 24 de abril de 2012
Francisco de Abril e os capitães de Assis
Acabadinha de acordar, depois de sonhos inquietos, que me custam as comemorações e as publicitações de recusas participativas em forma de diamantes brutos, na véspera do dia da liberdade, vejo o programa da "Sessão Festiva do 38º Aniversário da Revolução de 25 de abril de 1974" no site da Camara Municipal de Coimbra.
Primeiro respiro fundo, julgando os olhos ainda presos de sono e questionando a minha capacidade visual, depois apercebo-me, não só da veracidade do que leio mas também da coerencia do que é proposto! "Palestra proferida pelo Padre Vítor Melícias – “Espírito de Assis, espírito de Abril”
Não querendo retirar qualquer legitimidade a esta palestra (ahahahah!) ocorreram-me umas tantas ideias para o seu inicio, caso o diabo se lembrasse de me mandar fazer uma composição com este titulo. Ora aqui vai.
"Francisco de Assis foi o primeiro frade mendicante a fazer a pregação da palavra de Cristo de forma itinerante. Revolucionou através da palavra e através da pobreza a que se votou, aproximando-se, desta forma, dos mais humildes que tanto precisavam de conforto. Tal como este frade revolucionou e abalou a imagem da Igreja Católica, permitindo ao povo a compreensão de que a palavra de Cristo não era dedicada ou entregue aos mais poderosos, assim o povo de hoje, através da libertação de Abril, se apercebeu de que os sacrifícios, a mendicidade, a inerrância e por fim, a compreensão de todos os animais da terra é necessária. Todos os apertos exigidos, os sistemáticos pedidos da parte dos governantes para que a paciência e compreensão fiscal não sejam vistos como ataques, são os pedidos implícitos de Francisco de Assis á população de outrora. Dos pobre será o reino dos céus!"
Fico eu num limbo tramado sem saber se chame o Otelo, se me envergonhe pelos que tanto respeito e tanto lutaram pela liberdade, ou se arrulhe a palavra de Deus aos ouvidinhos desta gente que mais parece masturbarem a consagração do conservadorismo mascarando-a da arte de bem fazer amor (que me quero educada!) com as datas que só marcam quem delas conhece o significado... A CMC não deve ter orçamento para mais que uma palestra sobre o mendicante e a palavra de Nosso Senhor mas com certeza que convence com tanta bombinha de mau cheiro... E mais me apraz pensar que, se o nosso de Assis por aqui cirandasse teríamos muitos mais burros de quatro patas a encher púlpitos que nabos no hemiciclo que não estaria este para compactuar com tanta pobreza de espírito!
Talvez que, como nota explicativa sobre a decisão de fazer esta palestra, o Padre Melicias comece com a Palavra de Francisco de Assis: "Começa por fazer o que é necessário, depois o que é possível, e de repente, estarás a fazer o impossível!" A CMC conseguiu...
domingo, 22 de abril de 2012
A imaterialidade da arrogancia
Durante a noite de hoje fui visitada por uma ideia. Visita recorrente que transforma as minhas duvidas num diálogo benfazejo entre a minha pessoa e uma amiga que a leucemia levou quando ambas tínhamos sete anos de idade.
A Laura sentou-se, com as pequeninas pernas cruzadas, com os seus olhos escuros meio encobertos pela franja e esperou que eu dissesse o porquê de a ter chamado. Respirei fundo, com as lágrimas a quererem afogar-me o peito.
"- Sinto que sou melhor do que os outros..."
"- E choras por teres descoberto que és tão arrogante como a maioria das pessoas que habitam o planeta?"
"- Não. Choro porque quase todas elas conseguem comprovar isso, senão aos outros, pelo menos a si próprias. Já eu não me sinto capaz nem de uma nem de outra coisa!"
Lambi as comissuras da boca pastosa; percebi que estava demasiado emocionada para prosseguir e deixei-a retomar a conversa.
"- O que tu sentes, querida amiga, é que não terás sucesso, que não te conseguirás destacar dos demais e, por conseguinte, que falhaste no sonho de seres admirada. O que resta que descubras é que andas demasiado ocupada a sentir e pouco inclinada a concretizar."
"- Não... Se eu concretizo isso significa que me transformo num ser em poder de todas as suas faculdades e..."
"- ... Por consequência, melhor para uns, pior para outros, mas igual para ti. Sendo que és demasiado arrogante para aceitares que és de facto igual a todas as insignificâncias que tanto te assustam!"
"- Precisamente! No entanto, também me consciencializei que, este não querer fazer para não estar inserida, equivale a uma sanidade defensiva que me torna..."
"- Igual."
A Laura sorriu-me saboreando a partilha da insanidade momentânea.
Sempre me soubera colocar no lugar certo com palavras pequenas. À medida que a morte a distanciava de quem fora e a aproximava de quem eu queria que ela viesse a ser, tornara-se mais provocatória, quase acintosa.
"- Mas como te propões ser diferente se sabes que todos os traços de personalidade foram e são neste mesmo espaço em que vives? Como alterar a existência provocando essa reforma de carácter que tanto buscas e que não seria compreendida, quando concretizada, por ti ou pela restante sociedade? Optas pela loucura, criminalidade, beatificação, niilismo absolutista? Como te queres comer mantendo-te viva? Como ser o que não existe?"
"- Mas tenho que arranjar maneira de permanecer diferente... de ser... eu!"
"- És uma compilação, uma deformação de verdades que acabam por ter variantes mais ou menos escabrosas a partir do momento em que as tentas desvendar. Um universo como outros tantos milhares que acabará esquecido e resguardado pelo pó se, tiveres a sorte de ter alguém que venha a ter conhecimento da tua partida. O que te digo é que chores o que tens para chorar e que te mantenhas inconformada... Igual mas pelo menos um tanto ou quanto original... Mas isto é apenas a minha opinião!"
A Laura sentou-se, com as pequeninas pernas cruzadas, com os seus olhos escuros meio encobertos pela franja e esperou que eu dissesse o porquê de a ter chamado. Respirei fundo, com as lágrimas a quererem afogar-me o peito.
"- Sinto que sou melhor do que os outros..."
"- E choras por teres descoberto que és tão arrogante como a maioria das pessoas que habitam o planeta?"
"- Não. Choro porque quase todas elas conseguem comprovar isso, senão aos outros, pelo menos a si próprias. Já eu não me sinto capaz nem de uma nem de outra coisa!"
Lambi as comissuras da boca pastosa; percebi que estava demasiado emocionada para prosseguir e deixei-a retomar a conversa.
"- O que tu sentes, querida amiga, é que não terás sucesso, que não te conseguirás destacar dos demais e, por conseguinte, que falhaste no sonho de seres admirada. O que resta que descubras é que andas demasiado ocupada a sentir e pouco inclinada a concretizar."
"- Não... Se eu concretizo isso significa que me transformo num ser em poder de todas as suas faculdades e..."
"- ... Por consequência, melhor para uns, pior para outros, mas igual para ti. Sendo que és demasiado arrogante para aceitares que és de facto igual a todas as insignificâncias que tanto te assustam!"
"- Precisamente! No entanto, também me consciencializei que, este não querer fazer para não estar inserida, equivale a uma sanidade defensiva que me torna..."
"- Igual."
A Laura sorriu-me saboreando a partilha da insanidade momentânea.
Sempre me soubera colocar no lugar certo com palavras pequenas. À medida que a morte a distanciava de quem fora e a aproximava de quem eu queria que ela viesse a ser, tornara-se mais provocatória, quase acintosa.
"- Mas como te propões ser diferente se sabes que todos os traços de personalidade foram e são neste mesmo espaço em que vives? Como alterar a existência provocando essa reforma de carácter que tanto buscas e que não seria compreendida, quando concretizada, por ti ou pela restante sociedade? Optas pela loucura, criminalidade, beatificação, niilismo absolutista? Como te queres comer mantendo-te viva? Como ser o que não existe?"
"- Mas tenho que arranjar maneira de permanecer diferente... de ser... eu!"
"- És uma compilação, uma deformação de verdades que acabam por ter variantes mais ou menos escabrosas a partir do momento em que as tentas desvendar. Um universo como outros tantos milhares que acabará esquecido e resguardado pelo pó se, tiveres a sorte de ter alguém que venha a ter conhecimento da tua partida. O que te digo é que chores o que tens para chorar e que te mantenhas inconformada... Igual mas pelo menos um tanto ou quanto original... Mas isto é apenas a minha opinião!"
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