terça-feira, 9 de abril de 2013

Nota encontrada no bolso de uma alma suicidária


Começou como tudo começa.
Um leve apontamento, um pensamento que questiona a veracidade das respostas.
Uma tristeza tão pequena, tão singela, que pouco valor lhe poderia ser atribuído. Algo tão suave, tão ligeiro que quase não podia ser sentido... Aquele encanto dormente, uma espécie de amargura que encarde mas não suja. Desfazendo o penteado, colocando os dedos frios, marmóreos, entre o calor desse ninho amoroso que me coroa e emoldura o rosto. Entrançando a memória, acariciando a pele mais velha, esmaecida, escarnando ao vislumbrar a superfície polida... Voltando à incidência da reflexão, pensando nessa companhia que sorri enternecida, na lonjura de uma dúvida, numa outra certeza de amargura.
Não seria eu sozinha... Os ombros desnudos e a complacência da sua brancura acompanhando a brandura da pauta que soa e não se desenha nesta realidade, nesta abstração a que continuo alheia.
Uma melancolia tão apreciável, tão doce que quero eternizável... Esse amor pela companhia, esse acompanhar-me que combate o dualismo, esse arrazoado de sentires que estima e enaltece o meu mutismo. Algo que se compreende com o gosto do nós pelo eu. Um mundo que se sabe exposto e que, tão espesso se vai tornando, poderei sempre chamar de meu.
Olhando os pulsos, as mãos mais grossas que antes, antevendo as manchas, as dores os sulcos arenosos dessa epiderme que o futuro esconde e... hei-la de volta: a sistémica, endémica camada de medo que cobre o gosto, que deixa o travo amargo que vicia. Algo que surge por fora, que urge acarinhar e esconder não vá o descuido mostrá-la a quem a não saiba ver...
Essa frase companheira que se esconde na interrogação da partida, uma certeza indefinida de querer desistir um pouco mais depressa. Não porque não se goste da vida mas porque é a morte, essa partida que escanteia a falácia das juventudes, que a engana e ataca o seu prazer pelas carnes miúdas.
Olhando os seios, esses seres de vistas curtas que se esbugalham com os espantos alheios... Inertes, sem sangue que os queiram cheios. Esse esvaziar de adventos, de vontades, de ataques e emolumentos.
Como se escreve uma carta às nossas bem feitorias mais urbanas? Como deixar notas ao eu que tão bem conhece a dita história? E dar conta ao que temos dentro do desespero miudinho? Esse eco ruidoso que se ouve no escuro num perpétuo burburinho...
Como nos podemos declarar pedindo ao eu para nada recear, para não esquecer que morre só o que não nasce em sua companhia?
Como explicar que a dor, essa abrilhantada amargura será sentida apenas... no momento antes, o prévio segundo da partida? E depois? Se for a inconsciencia o que invade o corpo. Como voltar a sentir tanto se fica o invólucro morto? Como voltar ao que se questiona, ao contorno da idolatria, desta desigualdade que se irmana quando me deito comigo na mesma cama? Se não me puder voltar a amar, a sentir proprietária desta inveja do que não sei concretizar, deste desespero entristecido pela complacência da incompetência de me manter no estado latente de dormência?! Se morrendo, morrer de vez? Se nada mais estiver nos meus planos a não ser um apodrecimento diferente, não menos belos mas, uma vez mais, triste por ser tão inconsciente... Como voltar atrás desfazendo a tonitruante tortura de querer sentir esse adeus novamente? Como nos despediremos de nós diariamente?

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