quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os crimes do Néné


Insistiam em chamar-lhe Néné! A mãe dera-lhe o nome de Manuel porque lhe sentiu uma certa aristocracia nas tripas e vai que a malta insistia no tratamento facilitado, no infantilizar o grandioso.
Já passara a barreira dos quarenta, já deixara as camisas de manga curta e os sapatinhos de vela. Punha má cara de todas as vezes que soava aquele nome que lhe dava um formigueiro na barriga mas o pessoal insistia em buzinar "Néné, tás bom pá?"
Acabara com as festas na casa da família, ultimo resquício da herança que fizera de conta que seria eterna; acabara com os engates e com as cismas filosóficas; criara uma ruga vincada no meio da testa de tão mal que acatava aquele chamamento, até ganhara o hábito de cuspir no chão (mania pequeno-burguesa que lhe granjeara o epíteto de cagão endinheirado e malcriado) mas nem assim aquela gente entendia que a sua graça era MANUEL!
Pequenez de Zé povinho, era o que a mãe lhe diria, esquecendo que a sua progenitora havia sido a criadita dos latifundiários de Montemor, e sabe Deus que outros trabalhinhos havia feito para além de lhes corar os brancos antes de virar uma "senhora".
Mas isto, aos olhos de Manuel eram as chamadas putices da vida, nada que lhe corresse no sangue. Havia que fazer o possível, e esse possível era uma impossibilidade quando rodeado de mentecaptos que se diziam homens mas tiravam cursos com nomes efeminados como "serviço social" e outros quejandos.
Cirandava, como os outros, na cidade dos estudantes, perdendo a conta às matrículas, sendo encontrado pela rua com livros debaixo do braço; livros que nunca lia. A porra da imagem...
Desgaste, era tudo o que sentia! E pensar que havia quem achasse que a vida era curta, que deveríamos ser eternos, combativos, belos... Anarquistas emocionais! Não passavam de reaccionários do bem falar e do mal existir. Havia de ser uma coisa esperta ver aquela cambada num mundo perfeito, sem fome, sem guerras, sem doenças. Direccionavam aquela vontade de valorizar o individual, a vaidade de ser bom e lutar pelos seus ideais para onde? Acabavam todos a enrabar a mãe era o que era!
Já desistira de verbalizar estes pensamentos. Havia sempre uma loira de pele curtida pelo solário, morta de fome e de curvas convencionais, saída de um livrinho da Anais Nin para lhe falar do Freud e das psicoses virosais que lhe atacavam a espinha! Puta que as pariu!
5 horas e ele sem dormir... Dava voltas à piscina que tinha um verdete estranho nas bordas tal como ele tinha uma coroa Santo Antonina a enfeitar-lhe a cabeça. Cabeça de vento, cabeça de pecados, cabeça oca, cabeça, cabeça... Era para o que esta gente vivia... Se lhe chupassem a cabeça da gaita em vez de lhe azucrinarem a alma com ideias que não interessavam nem ao dito do menino Jesus!
E então? E se não lhe apetecesse fazer porra nenhuma com a vida que em sorte lhe calhara? Era uma mal danado que vinha ao mundo, querem lá ver? Que o deixassem em sossego era só o que pedia.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Há dias do Cara*+&$#!


A malta já não acredita em nada: nem no pai natal, nem nas renas do dito, nem na existência do homem aranha, bêbedo e transvestido de borboleta, escondido pela vergonha da perda dos seus poderes, nem tão pouco em chuvas de sapos. Já eu acredito em qualquer coisa. Aliás sempre acreditei e não é o passar do tempo que me há-de convencer de que não devo continuar a ser crente.
Esta oratória vem toda a propósito da incursão que acabo de fazer à missa de sétimo dia da minha avó e do rescaldo da minha expulsão, durante o dia de ontem, do gabinete de uma clínica dentária.
Por partes que já não basta levar traseiradas de sassis em stops insuspeitos, não é verdade?
Ontem deu-me uma dor num dente. Até aqui nada de novo, que dores de dentes todos temos e enquanto não me crescerem os marfinosos noutra zona que não a boca, a surpresa não pode ser grande!
Fiquei chateada; não apenas com a agonia subsequente mas porque tinha arranjado o diabrete de que me queixava sete meses antes. Telefono para a clínica e explico a situação: que não se admite, que não estava para isto, que era o  que me faltava passar a vida de boca aberta enquanto eles brocam o que lhes apetece e não a zona que quero que matem! Consulta marcada e lá vou eu.
Deito-me na cadeira e explico, novamente a situação.
"-Mas olhe que o dente que lhe dói não é esse!"
"- Como?" - Pergunto com o aparelho que suga a saliva na mão.
"- O-dente-de-que-se-queixa-não-é-este"- carrega a sra.dra. num para dar grafismo à coisa, falando como se eu fosse retardada mental e não uma tipa com dentes de qualidade duvidosa - "- É este!"
Incrédula ainda rebato.
"- Tenha lá paciência mas eu sei bem qual é o dente que me dói!"
"- Pois! Olhe, para além disso o dente que foi arranjado foi o 34 e não o 24!"
Pela minha saúde que tive ganas de lhe perguntar se ela julgava estar no bingo mas respirei fundo e deixei que me apontasse, de forma muito impaciente, na esquelética da minha ficha, quais era os animais 34 e 24. Conclui que a dentista anterior me arranjou o dente de baixo e registou o arranjo do de cima.
Sem me dar ao trabalho de tirar a maquina sugadora disse:
"- Poix. Nexas chircunstânxias terei que aprexentar queixa."
A sra. dra. saca-me do babete e endireita-me a cadeira. Tira tudo o que meteu na minha boca e sem mais contemplações diz que não me ia tratar dente nenhum. Abanei levemente a cabeça pensando que podia ser um problema de altitude, uma alucinação auditiva, eu sei lá. Fui-me levantando nos entretantos. A tipa não vai de modas e empurra-me fazendo pressão para que eu me pusesse dali para fora. Claro que entre "conversas" posteriores com o director da dita clínica e muitas outras macacadas, tudo se resolveu mas estou em crer que serei o único ser do mundo a ter sido expulsa do dentista.
Deus Nosso Senhor, não satisfeito com esta belíssima merda manda-me, hoje, outra anedota.
Chegada à Igreja, atrasada, sento-me no banco da frente, ao lado da minha mãe. Miro as fotografias da juventude da minha avó má e estou a reflectir quando entra o sr. padre. "- Vamos rezar esta missa pelas almas dos irmão que partiram: José Simões Aguiar Melo, Francisca Genoveva de Linhares Nova, Almerinda Maçaroca Velha..." Ouvi muitos nomes... Muitas alminhas ali cirandavam, mas a da minha avó, nem nomeada quanto mais apoderada de rezas sacrossantas.
Olhei para a mamã, que, entre nervos e raivas se começou a rir.
As velhas, desgrenhadas, de chinelas de dedo e fome suficiente para comerem uma terrina de hóstias, olhavam-nos de esguelha... Não nos conheciam e nem nós a elas. O padre já me irritara no funeral. Ler é coisa que não sabe muito bem e o sotaque cerrado também não ajuda, mas esquecer o nome da defunta?!
Dirijo-me à sacristia no final da missa.
"- Sr. padre, sou a neta da Maria Luisa Roque Cardoso, a sra. cujo funeral celebrou na quinta feira passada."
Pausa; despe a batina, franze o sobrolho;
"- Eu não fiz o funeral dessa senhora..."
Agora é a minha vez de franzir o sobrolho.
"- Eu não fiz esse funeral!" - repete com o ar indignado de quem estava a ser acusado de roubo.
"- Vai-me perdoar mas tenho a certeza de que foi o sr. padre que celebrou a missa de corpo presente da minha avó!"
"- Como é que tem a certeza?!"
Já fora de mim vi-me na obrigação de responder:
"- Antes de tudo porque não há mais nenhum padre preto em Formeselha!"
"- Ah! Pois! Não me recordo!"
Enchendo-me de paciência lá digo ao homem que não rezou missa nenhuma de sétimo dia pela alma da minha avó má.
Esgadanhando-se, o padre ri e diz:
"- Mas a menina devia ter vindo antes do inicio da missa dar-me o nome da sra.!"
"- Agradeço que não se ria que o assunto para mim é sério!"
Danada, tão danada que estou... Anda meu malandro, faz-me outra para eu perder as estribeiras e vamos ver se haverá mais chamas no inferno do que as que eu tenciono atear em terra!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O rapaz que todas nós tivemos

É uma daquelas noites em que amanhece antes que tenhamos tempo para pôr os pensamentos em ordem... Uma daquelas noites em que nos convencemos de que por mais que bebamos não ficamos ébrias.
Ao nosso lado está aquele jovem que nos olha sempre com uma atenção incómoda; que nos segue o bambolear escadas acima, escadas abaixo, que atenciosamente escuta os nossos devaneios de mulheres desvalidas e desvairadas. Sabemos que ele é pacato, seguro. Tratamo-lo sempre por amigo estando mais que conscientes dos sentimentos que nutre por nós e, como precisamos de companhia, colocamos-lhe uma mão no ombro... inadvertidamente, claro.
Sabemos que ele sai do bar onde estamos, noite após noite, depois da nossa saída. Oferece-nos sempre boleia e aguarda, aguarda, aguarda... que o olhemos de outra maneira, que nos apercebamos de que ele não nos faria sofrer como o mariola que nos faz beber daquela forma!
Ao contrário do que pensam os outros homens, este rapaz não é, aos nosso olhos, feio... Apenas nos causa uma certa aversão pela subserviência que tenta demonstrar quando o outro, o que nos incita ao apaixonamento desbragado é um desnorte de autoconfiança e está, àquelas horas, nos braços de uma catraia qualquer, gingando-lhe o corpo de lado, de quatro, de frente; e quando esta imagem nos atravessa a mente ficamos com os olhos rasos de lágrimas, muitas vezes com mais raiva de nós mesmas que desse enfadado do amor!
Vai que há um dia em que o convidamos a entrar em casa para uma bebida... Já não nos temos nas pernas e, antes de ele se sentar no nosso sofá já nós estamos a correr para a casa de banho vertendo bílis boca fora.
Sentadas, suadas, com o corpo a tremer, a maquilhagem a escorrer cara abaixo e um aroma pestilento na nossa boca, conversamos mais um pouco, dizendo como somos desgraçadas, incitando a que ele concorde que o que sentimos por ele, o outro, é algo de diferente, de belo e que o dito animal não entende o que está a perder!
Sabemos no que isto vai dar e, nesse dia, arriscamos a permissão. Ele agarra os nossos lábios com demasiada fome e nós que esperávamos delicadeza só lhe ouvimos um rufar estranho no peito. Levamos a mão ao seu pescoço e pensamos que a jugular lhe esconde o coração e não apenas o batimento cardíaco. Temos medo que o rapaz rebente. Mas a confusão já é muita e ele confunde todos os nossos gestos com entusiasmo e esforça-se o mais possível para que aquele momento nos prove que somos almas gémeas.
A língua dele entra-nos na boca e sentimo-la muito grossa; pela primeira vez pensamos na quantidade absurda de coisas bebíveis e comestíveis que por ali passaram desde a ultima que o tipo lavou os dentes. Arrepios gelados! A saliva é mais grossa, mais pastosa. O corpo não se adqua aos nossos desejos. Um nojo indescritível atravessa-nos a pele.
Por vezes temos a sorte de parar antes da consumação.
Hoje, conversando com uma amiga, recordei o sentimento da inadequação da concretização de desejos que nos são alheios.
O sexo por pena existe e, as mulheres que já passaram pelo que lêem sabem que a pena é, por norma, de nós mesmas!
Tempos tristes que nos enriquecem o presente e o futuro quando sabemos o que é, de facto, amar e ser amada.
Um sentido bem haja ao rapaz que todas nós sabemos quem foi...

terça-feira, 22 de maio de 2012

O que me assusta

Do que tenho medo é de dormir encostada a uma parede tendo o sono acompanhado por quem amo; de não abrir a boca por falta de forças para defender as minhas opiniões; não me despedir dos que partem sem aviso prévio; de me faltar a coragem de me assumir como velha; de ficar tão saudosista que não veja que o futuro existe; de não poder pedir colo à minha mãe...
Todos temos diferentes receios mas eu tenho pânicos misteriosos que me entristecem e transformam horas em vales de lágrimas que, só a muito custo, consigo explicar. Sou afoita a dores genéricas e prefiro as caras, de marca, que só não saem do mercado porque o mundo das emoções continua a ganhar importância com elas.
Podia tentar modificar esta forma de estar mas isso traduzir-se-ia no modificar esta forma de ser que é coisa que me interessa muito pouco. Não que me force à originalidade, algo que está de tal ordem na berra que faz com que o corriqueiro substitua a diferença. "Somos todos muito bons no fundo!"
Mais umas voltinhas e as acusações do costume: cambada de incompreendidos que fazem pseudo ameaças de carácter kármico. "O que não me mata fortalece-me"; "O ultimo a rir, rirá melhor" e entre tantas outras afoitices dramo-ideológicas.
Porque somos bons, porque não queremos saber das criticas, porque não necessitamos dos que não gostam de nós e por ai fora...
Eu com franqueza fico doida quando sei que há uma alma que afirma não gostar de mim... mas isto parece-me natural. Tendo-me eu em tão boa consideração como posso admitir que haja um qualquer imbecil que não veja o meu valor? Há este lado da questão e o outro, o mais tenebroso... a necessidade de ser gostado.
Mas, como já disse, não é nada disto que me assusta.
O que me assusta são as tempestades de vento que me fazem tremer as persianas; tomar banho com a luz do corredor acesa e a porta fechada, imaginando eu seres rastejantes e de outro mundo a sombrear-me a fresta da porta; o que me assusta são as calorias existentes numa lata de leite condensado pré-cozido...
Cada um com os seus dramas.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Desapareceu a bruxa má do oeste

Escrever-te uma carta é dificil...
Quando me apanhaste pequena ofereceste-me uma boneca. Na altura de partir retiraste-ma dos braços, não te compadeceste com as minhas lágrimas dizendo que ma tinhas apenas emprestado.
Quando o vovô me dava leite fresco com bolachas migadas deixavas que virasse as costas e enchias-me a taça com o leite do dia anterior.
Quando viste a minha caderneta da Heidi completa deitaste-ma fora e sorriste enquanto me observaste, um dia inteiro, procurando-a.
Os gigantones que escondias no armário saiam quando estávamos sós. Corrias atrás de mim, mascarada, sabendo do meu pânico, gargalhando estridentemente com o gozo que te dava o meu pavor.
Não eras uma boa pessoa. No entender da minha avó pobre não eras mau diabo... Alterando o sentido da frase também concordo com ela.
Acordei às cinco da manhã arrepiada. Sempre tive medo que morresses. Se alguém poderia voltar para me invadir o sono esse alguém eras tu.
Não te senti morrer e quando soube tremi... por ti.
Quando vi o teu caixão recordei-me do que foras antes de te conhecer.
Eras uma estampa. Alta como eu, festeira como eu, alegre como eu... Loira de olhos azuis, tez branca de neve. Desejada por beltrano e sicrano mas o que querias era festa.
Hoje alguém que nos deu os pêsames disse "Bendeu-me muitos copos de binho... Boazinha a Luisinha!"
Eras tu. Gostavas da malta malcriada e a cheirar a água ardente. Gostavas de comércio e de passar rasteiras aos clientes. A imperatriz dos trapaceiros.
Muito podia recordar que me transforma o sentir em não saber mas... Luísa, estou com saudades tuas!
Sabes o que foste na minha vida? O preto que me ensinou a amar o branco, o dia de chuva que me fez ansiar pelos dias de sol. Se não foras tu como poder amar o teu marido com a sua compassividade e mãos de sonho perdidas nos meus cabelos?
Se não foras tu como amar as idiossincrasias da mamã... Se não foras tu como saber o que não queria ser?
Sinto a falta do teu adeus.
Não nos gostávamos e não será a morte a fazer de mim uma hipócrita mas isso não significa que não te visse, não te olhasse e não te amasse desse modo invertido!
Porque insististe em partir sozinha? Seria assim tão perigoso para as tuas raivas teres sido capaz de gostar de mim só um bocadinho? Eu ter-te-ia agarrado na mão. Podias ter-me contado as guerras que tinhas com o vovô por gastares todo o dinheiro da loja pagando os foguetes dos festejos da aldeia. Tu não sabes mas eu também adoro foguetes. Aquele estampido que nos dá um leve susto que nos alveja a alma. Podias-me ter contado porque nunca dormias na cama dele. Pensas que não sei o que é o desapontamento, o esgotar de uma paixão?
Podias ter sido minha aliada. Eu não sabia que era a consumação da primeira desobediência da mamã.
Sabes Luísa, tenho saudades tuas.
Nunca a maldade será tão pura. A tua honestidade era rara... é que pessoas más encontro muitas mas as que declaram guerras troando, bradando o que pensam, nenhuma. Foste única e não te quero debaixo da terra.
É que eu vim de ti... E, sabes, aquela desarrumação que transformava os teus espaços em armazéns quase porcos? Eu sou tal qual a minha avó... Mas eu tenho vergonha e acabo por limpar, não tenho a tua coragem! Ando sempre contrariada tentando fazer o que detesto.
Como vês, se não calhasse ser tua neta poderíamos ter sido amigas.
Morreu a minha bruxa má do Oeste e levou um dos meus sapatinhos de rubi consigo... Será difícil conseguir voltar para casa.

terça-feira, 15 de maio de 2012

'Democracices'

Escutei hoje um programa sobre o estado da democracia em Portugal...
Escutei com a paciência costumeira de quem julga que as suas ideias são melhores que as dos outros e ouvi os "outros" dizendo que as deles eram melhores que as minhas. Um programa como deve ser, ou como costuma ser, diga-se antes assim.
Eis senão quando, no meio de intervenções sociológicas, se começa a falar sobre a abstenção.
Aqui parei o carro julgando-me à beira de um ataque de nervos. Todos temos a nossa forma de encarar as coisas; beleza e vicissitudes democráticas, mas, há umas quantas, que por mais desenhos que me façam não me enfiam goela abaixo nem com mel.
Dizia-se então que a abstenção deveria ser já por si vinculativa (foi aqui que parei o veículo!)... Esperei porque não conseguia descortinar o que quereria significar o carácter vinculativo da abstenção.
Sentindo-me obtusa e cada vez mais próxima do meu lado ditatorial, oiço a explicação: Ora, ao que parece, haveria uma contagem estatística de votos e, portanto, quantos menos votos menos lugares na Assembleia da República.... Conclusão de quem falava: "Desta forma haveria uma triagem dos maus políticos que não chegariam a ser eleitos por não haver lugar no parlamento". Fiquei muito quieta durante uns segundos pensando no que acabara de ouvir. Todos sabemos que os políticos, quanto mais visibilidade têm mais competentes são. E, não sendo esta a elação que daqui se tira, também todos sabemos que os que singram na vida partidária são, sempre, os mais sérios!
Puxo do meu, quase esquecido, catolicismo, sentindo o tremor da mão que me quer benzer.
De seguida fala-se da obrigatoriedade de voto. O voto, ao que parece, não deve ser obrigatório porque, sendo transformado num dever, se torna a antítese da democracia.
Eu também acho!!! Julgo aliás que, vivendo numa democracia saudável todos temos o direito de ser anti- democratas, anti-monárquicos ou anti-pragmáticos... Porque assim sendo, seguindo esta corrente de pensamento, aos que me dizem que não votam por não acreditarem no sistema politico, não deveria ser dado o direito (democrático!) de emitirem opiniões sobre as politicas dos governantes que, convenientemente, não ajudaram a colocar no poleiro bem como não contrariaram a sua subida ao poder.
Voltando à minha ditadura de ser pensante; como posso escutar que a malta que vota devia ter benesses fiscais para que assim houvesse uma justificação para a viagem tormentosa até às urnas?! Que não faz sentido que as pessoas tenham que se deslocar para exercer o direito de voto e permitir que estejam lá sempre os mesmos gandulos. Pois estão SEMPRE os mesmo estão, vá lá o diabo concluir porquê!
Por mim, num estado de intervenção cívica consciente, só se manifestava, queixava e lutava pelos seus direitos quem respeita a comunidade, quem dá valor ao facto de podermos marcar a diferença papelinho a papelinho. Bardamerda para estes democratas por conveniência!


quinta-feira, 10 de maio de 2012

O meu fantasma predilecto


Acordei cansada de tanto andar...
Assim que fechei os olhos regressaste. Levaste-me de novo para perto das vacas. Estava eu, pequena, de vestido vermelho arrancando as tranças que me fizeras com tanta ternura, de fronte para a mimosa, tocando no nariz cor de rosa e húmido.
"- Joaninha, não mexas nas vaquinhas." - dizias com as mãos metidas na mistura de ração que preparavas para o almoço das leiteiras malhadas.
Fazia sempre de conta que não te escutava e a mimosa, como forma de me agradecer o carinho, metia a enorme língua dentro de uma narina e lambia-me o rosto atirando-me ao chão. Ouvia-te rir, disfarçadamente, no canto do estábulo.
Depois desviava-me dos teus cuidados para fazer castelos dentro dos montes de feno.
"- Joaninha não mexas no feno." - dizias tentando que eu não passasse a noite ao teu colo de costas desnudas e borbulhentas enquanto as enchias de alcool canforado para que se acalmassem as comichões.
 Eu sonhava com melhores dias para os borrachos que matavas em fila. Dizias ter pena que os bichos assistissem à morte dos seus parentes e fizeste uma máquina que os decepava a todos de uma "penada".
Agarravas-me ao colo e prometias-me que os caracóis que me emolduravam o rosto me fariam casar jovem com um príncipe de um reino distante.
"- Ele tem um lago com patos?" - perguntei-te.
No dia seguinte, depois de me colocares perto da mimosa, foste, de enxada na mão, para o terreno de pasto. Cavaste, cavaste, cavaste.
Três dias depois sabia que eras o meu príncipe encantado. E eu tinha um lago com patos.
Pão com marmelada, leite fresco... Eu comia deleitada, tu ias-me despindo para me dares banho. Tiravas os fios de palha do meu cabelo, os carrapatos do vestido. Lavavas as minhas meias no tanque de cimento porque sabias que tinha saudades do cheiro do tanque comunitário de Santo Varão. Correste todos os sabões até acertares com o cheiro que eu dizia recordar de quando para lá ia com os pés atentos à espuma e os ouvidos às cantorias das viúvas.
A água que me passavas no corpo estava sempre morna. Não me deitavas champô nos olhos, não me fazias uma beliscadura ao pentear-me os cabelos emaranhados.
"- Joaninha tens um ninho na cabeça."
"- Um ninho de quê vovô?"
"- Um ninho de amor..." - concluías com um beijinho repenicado na cabeça, e eu, deleitada, jogava os braços ao teu pescoço já morta de saudades tuas.
Na loja avisavas-me quando apareciam as velhas de bigode que me feriam a cara com os mimos excessivos a que não tinham direito. Fazias-me sinal e eu ficava alojada a teus pés, por debaixo do balcão de madeira, descascando caramelos.
Recordei, dormindo, o nosso reencontro. Tu de olhos rasos de lágrimas no recreio do colégio. Um momento de hesitação e o grito alto para os meus amiguinhos - "- Aquele avô é o meu!"
Vovô tenho tantas saudades de nós meu amor.
Acordei cansada e chorei até me doerem os pulmões.
Nunca ninguém me fez eclodir beijinhos no meu ninho, ninguém me fez lagos, ninguém foi condescendente com os meus disparates, ninguém gastou tempo procurando os cheiros que me dão prazer.
Depois de comer algo doce nunca bebo água... Tu dizias que se o fizesse o sabor da guloseima não teria durado quanto podia. Deixei de beber água depois de tudo o que me dá prazer...
A bênção, meu fantasma predilecto.

domingo, 6 de maio de 2012

o útero e os seu feijões

Dia da mãe.
Tenho uma, apesar de haver rumores de que nasci por geração espontânea. A minha é das rijas. Uma mulher de críticas e arrogâncias, de poucas humildades e de humor acutilante. Uma menina honesta que, às duas por três, me pergunta porque sofro, visto que, ficando em casa a fazer malha em vez de me pôr com saídas e arejamentos, nenhum sofrimento me caberia.
Eu tenho uma mãe inacreditável em todos os sentidos. Uma catraia que ombreia comigo em tudo menos no receio de que a vida lhe roube os sonhos.
A minha Fernandinha tem o condão de me tirar do sério em quase todos os discursos que me faz... Tem a capacidade de me ensinar a ser mulher e a não alimentar os meus medos; a encarar os adultos como adolescentes mais velhos, a entender que as verdades dependem do universo de cada um.
A minha Fernandinha acarinha-me como sabe... Por vezes com o colo que, apesar do meu metro e oitenta, ainda me dá, outras com o arremesso de um chinelo.
Mãe há só uma, graças a Deus. Porque é difícil gerir o bem que nos sabe tê-las e saber que não nos pertencem; porque as queremos perto e eternas, nunca envelhecidas ou cansadas e, muito menos de partida...
A minha Fernandinha é avariada mas não tem uma só peça estragada. É aquela mulher horrorosa, que levava a piquena á praia, passeando a sua barriguinha negativa num biquini reduzido e se divertia a tirar a comida da boca da cria para ela não ficar pançuda. Era ver oferendas de sugos voarem pela janela a minha infância toda! Mas o cuidado com que me regava os vegetais com sumo de limão não tem explicação.
A minha Fernandinha é inconcebível... Acredita que sou pura até quando me pergunta de que cor será o meu vestido de casamento e se quero um raminho de flores de laranjeira nesse dia, entre gargalhadas de valor cósmico.
A minha Fernandinha estudava comigo ao colo e dava-me papa antes de servir o meu maninho recém nascido para que eu soubesse que este não me roubara o seu amor.
A minha Fernandinha ensinou-me a amar a vida, quando me fez dizer adeus ao meu pai que se julgava estar a morrer numa cama de hospital, quando eu tinha 5 anos.
A minha Fernandinha é uma fantasista inveterada que me acaricia os caracóis até nos dias de maior exaltação... É minha, minha, minha... Deixou-me crescer dentro dela e teve a hombridade de me oferecer ao mundo ao invés de mo dar. Escolheu o meu papá com o cuidado de quem escolhe um bom exemplo e deu-me o meu irmão que é o rapaz mais carinhoso e mais perfeito com que já regalei a vista.
É minha, minha, minha...




terça-feira, 1 de maio de 2012

Rentabilização dos vinte contos

Passei a tarde em ânsias analisando as minhas paixões e sendo engolida por racionalizações quanto ao que se passou com o Pingo Doce no nosso estimado dia do trabalhador. Aos que pouco me conhecem tenho-me como uma comunista reaccionária o que não me deixa, a mais das vezes, bem vista por nenhuma facção ideológica. Mas esta permissão que dou a umas ideias de deglutirem outras não me torna menos presente, menos consequente ou menos interventiva como cidadã. Desta feita fico, não dividida, mas numa completude estupefacta perante a grandeza de inteligência do marketing do grupo Jerónimo Martins.
Aos mais distraídos escapou a polémica do dia 30 de Abril em que sindicatos alertaram para o facto de, várias grandes superfícies (grupo Jerónimo Martins incluso), terem pressionado os seus trabalhadores a não exercerem o seu direito à greve, tendo sido avisados pelos seus superiores hierárquicos, de que seriam sancionados no caso de a ela aderirem. Ora, no dia seguinte, abre o PD as portas com uma promoção alucinogéna de 50 % de desconto em compras superiores a 100 euros. Em primeiro lugar nunca deu tanto jeito aos poderosos que o dia do trabalhador e o feriado a que ele se refere fosse num dia 1. Famílias com dificuldades financeiras e que, ainda assim teriam que encher a dispensa, lá foram em romaria, tendo o salário já dado entrada (a maior parte das vezes) na desfalcada conta bancária!
Em segundo lugar, o que foi "demonstrado" aos sindicatos é que o povo adere às ideias de quem o alimenta e não às de quem diz que ele deve lutar para se alimentar.
Conheço muitas pessoas que aderiram a esta escatologia comercial; pessoas que admiro e respeito do mesmo modo que respeitarei as que, com o avançar do tempo, e sem 100 euros para aderir a tais "eventos", se lembrem de invadir os supermercados servindo-se a seu bel-prazer.
Já ouvi palavras bonitas dizendo que esta iniciativa deveria dar-se mais vezes para que, a bem das leis da concorrência, levadas pelo bem estar económico, as empresas, fossem obrigadas a descer os preços. Pois seria muito belo que o fizessem não fosse este caso ter-se dado com um salazarista mais ditatorial que o próprio que em tantas entrevistas já mencionou o que acha que o povo deve fazer e como o lado humanitário de um país deve ser visto.
Tendo ouvidos e bons olhos confesso que o cansaço a que tantos já se votaram também já me chegou ao lombo e, apesar de não me passar pela cabeça ir "feirar" no dia do trabalhador também não levantei o meu traseiro ressacado da cama para acompanhar as pessoas valorosas que se reuniram em manifestações, por esse país fora em nome dos cegos, dos preguiçosos, dos presunçosos, e de tantos outros "osos" que por ai pululam.
Se resolvi escrever sobre este assunto não foi para bater palmas ao  PD e ao seu Senhor que tão bem disposto deve estar, dizendo de si para si que povo pobre obedece e não morde. Também não o faço aos sindicatos, apesar do respeito que lhes tenho, idem para a população que, abrindo mão (ou não) dos seus valores ali se dirigiu.
O meu aplauso vai para os que, continuam a acreditar na inteligência do seu povo, que continuam a lutar pelos seus ideias e unificação de um país. Não estive em nenhuma das manifestações, nenhuma festa que marcasse a data mas prometi, coberta com a vergonha de uma antiga sonhadora que se perdeu nas racionalizações fáceis do "não serei eu a marcar a diferença" ou "lutar por quem não quer já me chega", que serei parte integrante deste sonho em que a interajuda e o idealismo valem mais do que o colonialismo monetário.
Quanto ao Sr. Soares dos Santos... Bem, é impressionante como um merceeiro consegue mostrar os seus pontos de vista num país como este!